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16 DE OUTUBRO DE 2013

Testemunho de um professor português em Timor-Leste

Uma experiência escolar fora de Portugal

Em Díli

 

Vou escrever este texto na primeira pessoa por necessidade de prender a sua leitura a um tempo menos prisioneiro de textos normativos e de notícias depressivas e mais a experiências profissionais e de vida.

As minhas começam em Janeiro de 2012, com o ingresso na Escola Portuguesa Ruy Cinatti, que à data ainda tinha o nome de Escola Portuguesa de Díli.

Esta é irmã de outras três, a de Luanda, a de Maputo e a de Macau. Independentemente de considerar necessário aumentar esta família atendendo ao facto de sermos um povo em diáspora, o que me parece mais importante dizer é que ver Portugal e a Europa à distância de dois continentes, o africano e o asiático, mostra-nos que é possível viver numa escola portuguesa, igual às escolas portuguesas, com o currículo, o calendário, a avaliação, os despachos, as plataformas, os livros de ponto, os exames em tudo igual ao que existe em Portugal. Mas as coincidências terminam aqui.

Em Díli, o professor da Escola Portuguesa goza de um estatuto aurático que lhe concede a simpatia da população e a atenção dos alunos. A sua motivação e disciplina constituem-se como dados praticamente adquiridos, pelo que só temos de nos preocupar com a leccionação do programa e com a mestria da língua portuguesa, uma vez que a língua materna dos estudantes é o tétum.

Para isso contribui a existência de uma farda, o que é muito positivo por eliminar diferenças entre filhos da élite timorense e os que vivem com poucos dólares americanos por dia; por fazerem forma no pátio da escola, onde o professor os vai buscar para os conduzir para a sala, funcionando estes poucos minutos como tempo ganho para os tranquilizar após os intervalos, em vez de isso ser feito na sala de aula; por os pais ouvirem os professores e por disciplinarem os filhos; porque ser estudante nesta escola é sinal de prestígio e exemplo de um ensino de qualidade, como é reconhecido por quem a frequenta.

Isto resulta em aulas efetivas, com professores muito motivados, isentos de problemas decorrentes de factores de exclusão ou pobreza, que aqui não são exteriorizados com comportamentos impróprios para um espaço escolar.

É este ambiente tranquilo que permite construir o equilíbrio entre a satisfação profissional e as dificuldades que aqui se sentem, próprias de um país que comemorou em Maio o 11.º aniversário da independência. A abertura de uma padaria por três jovens portugueses no mesmo mês de Maio foi motivo de alegria para os expatriados que aqui se encontram e refiro isto para ilustrar o quão pouco há em Díli. Esqueçam teatros, exposições, eventos, cafés, livrarias com alguma dimensão ou uma esplanada no centro da cidade. Abriram recentemente três salas de cinema e é tudo. Em Timor não há o hábito de se sair porque não há dinheiro para isso. O percurso da população faz-se entre a casa, o mercado e o local de trabalho. Aos fins-de-semana alguns vão até à praia. Momentos altos de participação social resumem-se ao corso no Carnaval e a procissões religiosas.

Confesso que este ponto é sensível. Para quem se alimenta da e na Arte resta-lhe a internet e alguns portugueses e brasileiros que se juntam para jantar. E resta-lhes, sobretudo, o trabalho, que aqui é libertador.

Merece ser igualmente referido que a visão de um povo que enfrenta enormes dificuldades mas que, como nunca teve mais, não sente falta de tudo o que a Ásia, tanto ou mais que a Europa, tem para oferecer, lhes permite manter uma vida tranquila e sem estados depressivos. Aqui, a acumulação de riqueza como finalidade para a vida não é sequer uma prioridade, não é sequer uma ideia que lhes ocorra. Mas isto é Timor.

A partir de Díli

 

Para quem tem o privilégio de aqui estar, viajar pela Ásia é uma oportunidade que não deve ser desaproveitada para perceber como a Ásia funciona e para reflectir sobre qual será o papel da Europa no mundo.

Na Indonésia, em Singapura, em Hong Kong, na Malásia e em tantos outros países, luta-se pelo trabalho e com facilidade os cidadãos se movem de um país para outro. As comunidades chinesas espalham-se pela Ásia e pela Austrália. A noção de fronteira reside no país que garante possibilidades de vida. E, por isso, estes países que referi são uma mistura de etnias, línguas e religiões, convivendo pacificamente e com enorme motivação para serem casos de sucesso. O vietnamita-budista convive com o indonésio-islâmico e vão ambos passear ao mercado indiano-hindu num país, por exemplo, Singapura, que os recebeu na sua língua e na sua religião, que é o inglês e a cristã mas que, na prática, acaba por ser a soma de todos eles. E é isto o que a faz grande, apesar de só ter cerca de 700 km2.

O que sinto na Ásia é que há espaço para todos e uma tolerância ao nível da Europa. Não existem os confrontos étnicos como os recentemente observados em Londres, Paris ou Estocolmo. Não se associa uma cor a uma possibilidade de assalto. Não se associa um imigrante a um rótulo. É esta expansão mental que a viagem permite e é neste ponto que reside o significado da palavra humanidade. A viagem educa para a pluralidade, a tolerância, a inovação, o gosto por arriscar.

E, com a viagem, percebe-se que a nossa casa reside na nossa língua. E a nossa língua é um passaporte para oito países e para um território autónomo, Macau, é uma oportunidade para estarmos em português fora de Portugal. O que construiu Portugal foram os portugueses que nele ficaram mas também os que dele saíram. Basta pensar nos maiores escritores-descobridores-oradores-cientistas portugueses para sabermos isso, para sabermos que foi também fora de Portugal que ganharam uma dimensão que lhes retira o carimbo da nacionalidade para lhes dar o estatuto de escritores-descobridores-oradores-cientistas de língua portuguesa.

O mundo na Ásia é cada vez mais uma soma de pluralidades, uma união asiática sem necessidade de apadrinhamentos políticos, ao contrário da Europa, onde andamos demasiadamente presos a linhas orientadoras de instâncias burocráticas. E o nosso futuro, o futuro dos portugueses, passa por vivermos na casa da língua que, no português, existe em quatro continentes, mas que pode ser do tamanho do mundo.

 

 

Pedro Morais de Meireles

Professor na Escola Portuguesa Ruy CInatti, Díli, Timor-Leste

 

 

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