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12 DE ABRIL DE 2013

Testemunho da Prof.ª Doutora Clara Pinto Correia (associada da Pró-Ordem) a propósito do aluno Miguel Relvas

Artigo de Clara Pinto Correia que foi vice-reitora da Universidade Lusófona

Infelizmente, ainda sobre Miguel Relvas

HÁ FILHOS E ENTEADOS

Esta questão da licenciatura de Miguel Relvas tem obviamente muito que se lhe diga, e seria bom que, em vez de circo mediático e linchamento na praça pública, se prestasse antes a um debate devidamente  aprofundado sobre a forma como as Universidades portuguesas, sejam elas públicas ou privadas, têm vindo a gerir o bizarro Ensino Superior que saiu dos Acordos de Bolonha. Há filhos e enteados, e eu não duvido de que, noutros países, estas alterações dramáticas na forma de transmitir conhecimento possam ter sido benéficas – mas nós, universitários portugueses, certamente que fizemos uma péssima gestão delas. Isto aconteceu logo desde o primeiro ano subsequente à assinatura do tratado, pelo que, pelo menos aqui em Portugal, este novo ensino nasceu torto e não dá sinais de estar a endireitar-se. E para já, antes de ir mais longe, podemos pegar-lhe por um pequeno detalhe: a famigerada cadeira de Introdução ao Pensamento Contemporâneo que fez o próprio Ministro da Educação chumbar o braço direito do Primeiro Ministro por nunca ter comparecido no exame escrito supostamente obrigatório para o aluno poder assegurar o lançamento da nota na pauta.

        Acontece  que, para o melhor ou para o pior, esta é uma cadeira que eu conheço bem.

Como algumas pessoas saberão, com início em fabulosas aventuras académicas desencadeadas no ano lectivo de 1995/96 e depois se prolongadas até 2010, eu própria dirigi na Universidade Lusófona a licenciatura em Biologia. E, por acaso, tenho muito orgulho no trabalho que fizemos nessa altura. Além que nunca será excessivo repetir que tivemos todo o apoio de que necessitávamos por parte da administração – podia ter que ser arrancado a ferros, podia ter que ser negociado semestre a semestre, mas a verdade é que funcionava sempre. E lançámos no mundo académico laboral ou académico, conforme os casos, alunos muitíssimo bem preparados. Entravam para ali num estado total de primeira infância, cumulados de todos os vícios que se adquirem até ao secundário, e saiam pelo outro lado, ao fim de cinco anos, a apresentar teses de licenciatura que membros totalmente isentos do júri consideravam autênticos trabalhos de diferentes níveis de pós-graduação. Era muito bom.

Mas, mesmo neste contexto privilegiado, a verdade é que nem nós estávamos livres da Introdução ao Pensamento Contemporâneo, que ainda por cima devia ser leccionada logo no primeiro ano.

É que esta cadeira era obrigatória em todas as licenciaturas da Universidade Lusófona. Por assim dizer, era a sua marca de água. Tinha sido criada pelo próprio Reitor, e era ministrada por amigos do Reitor – ou, pelo menos, pessoas da sua confiança pessoal – e aceitemos tacitamente que com boa preparação académica para o efeito. Nós não sabíamos. Não era do nosso pelouro.

Esta obrigatoriedade, que não escondo que tentámos contornar por mais que uma vez, deixava muitas vezes os novos estudantes de Biologia desarmados e perplexos: que raio de cadeira era aquela, por que é que tinham mesmo que frequentá-la, que sentido é que aquilo fazia para futuros biólogos, e assim por diante. Ao princípio eu dizia sempre que ter algum domínio sobre o pensamento dos nossos dias era importante para pessoas que, anos mais tarde, iriam ter que confrontar-se com todas as questões éticas, mediáticas e emocionais que a Biologia moderna desperta entre o publico leigo – e, por que não dizê-lo, muitas vezes até colegas supostamente oficiais do mesmo ofício.

A verdade é que toda a gente odiava aquela cadeira, e nós acabámos por tentar varrê-la para debaixo do tapete o mais que podíamos. Era uma exigência do Senhor Reitor, ponto final parágrafo.

Este estado de coisas nunca fez ninguém feliz, porque não há equipa de liderança de licenciaturas ou departamentos que viva bem com uma rejeição discente tão generalizada, assim como não há nenhum académico minimamente sério que consiga fechar permanentemente os olhos a vagas anuais  sucessivas de protestos dos alunos relativos à única cadeira que representa em si mesma o espírito da Universidade onde é ministrada. Mas, por absoluta inexistência de alternativas ou paliativos, tivemos que habituar-nos a viver com ela.

É-me fácil imaginar que todos os outros colegas na nossa situação tenham feito o mesmo.

Apenas imagino.

A IPC era uma coisa de que se falava o mínimo possível.

Também, se quiséssemos, não teríamos muito com quem falar. Os professores estavam sempre a mudar. Até ao princípio do ano lectivo, nós nunca sabíamos quem eles eram. Depois disso, nunca nenhum deles se dava ao trabalho de comparecer nos Conselhos Directivo ou Pedagógico do seu semestre. Raramente lhes víamos a cara.

E, ironicamente, teve mesmo que ser pela famigerada IPC que o gato foi às filhoses no caso oblíquo do estatuto universitário de Miguel Relvas.

A responsabilidade pesadíssima de escrever sobre tudo isto, esventrando o íntimo de uma instituição onde cheguei a sentir-me tão realizada e a ser tão feliz, não me dá qualquer espécie de prazer. Penso, apenas, que estes pormenores são contributos importantes para o debate que urge iniciar sobre a organização das chamadas “licenciaturas de Bolonha” nas Universidades portuguesas. Em todas elas, mesmo. Conheci muito bem a Lusófona por dentro, mas ando há tempo suficiente nestas lides para não ter a menor dúvida de que há situações semelhantes em tudo quando é Ensino Superior do nosso país. Nas licenciaturas, sim; mas certamente que também, talvez mais ainda, nos Mestrados e Programas Doutorais. Os responsáveis pelos seus conteúdos, do mais baixo ao mais alto nível, acabam por ser pressionados, de uma forma ou outra, a fechar os olhos a muita coisa. E, desde que há equivalências por créditos, claro que há ainda mais figuras do anedotário de cada instituição que acaba por ser melhor toda a gente pretender que não viu. É muito feio apontar o dedo, e eu nunca na vida o apontaria ao Reitor que criou a IPC na Lusófona. Acontecem coisas destas em toda a parte, e todos nós acabamos por pactuar com elas – nem que mais não seja, para nos livrarmos do estorvo de estarmos todos os dias na frente de combate.

O Ministério da Educação, para lavar devidamente as suas mãos das fraudes postas a descoberto no governo a que pertence, bem pode mandar agora investigar com grande zelo os créditos, equivalências e exames de todos os outros alunos suspeitos de facilitismo na mesma licenciatura que fez rolar a cabeça de Miguel Relvas. De certeza que vai encontrar pano para mangas, e é provável que esse material faça as delícias do jornalismo contemporâneo. Mas, nesta história foleira de profunda hipocrisia, a verdade é que estamos todos a atirar pedras à mulher adúltera. Em 1985, quando eu entrei como assistente para a Faculdade de Medicina e comecei a dar aulas de Embriologia, a história similar que fazia as delícias dos alunos era a cadeira de Deontologia Médica. Ministrava-a um distinto sénior que fornecia, a preço camarada, umas sebentas com toda a matéria que saía nos exames – impressas em papel timbrado do seu próprio consultório. Os colegas não sabiam de nada? O Reitor da Universidade de Lisboa não sabia de nada? No mínimo, duvido. A tradição era veneranda.

Por favor, toda a gente sabe, o que há mais é baldas nas Universidades. Se não forem estupidamente flagrantes, são  sabiamente encobertas. Se toda esta triste história deste tristérrimo Ministro de Estado de quem em breve ninguém se lembrará não servir para mais nada, então que sirva para abrir em todo o país um verdadeiro debate, realmente aberto, sobre o que é que é academicamente aceitável ou não. Portugal precisa. E os nossos alunos merecem.

   Clara Pinto Correia

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